|
Lidar com a fauna corporativa não é sopa
Por Max Gehringer
Como todo mundo sabe, "gestão de pessoal" é o
nome que se dá ao conjunto de boas práticas que auxiliam
a empresa a obter melhores resultados por meio de funcionários
bem treinados, bastante satisfeitos e altamente motivados. O que é
ótimo. Desde que, entre os funcionários, impere um ambiente
de camaradagem e aquele clima de cooperação mútua.
O problema, como sempre, está nas exceções.
A partir daquele momento em que o funcionário de boa paz tem sua
santa rotina invadida pelas exceções -- oportunistas, dissimulados,
carreiristas e outros expressivos representantes da minoria virulenta
--, as boas práticas da gestão de pessoal deixam de fazer
efeito. Aí, a única solução é a aplicação
de um programa paralelo e informal: a Digestão de Pessoal, uma
espécie de modus operandi da boa antropofagia corporativa.
Por que "digestão"? Porque o objetivo é o mesmo
do sistema digestório do corpo humano. É oportuno esclarecer
que o sistema digestório, até bem pouco tempo, era chamado
de aparelho digestivo. Mas, aparentemente, alguma consultoria deve ter
sido chamada para dar sua contribuição ao avanço
da ciência e fez o que qualquer consultoria faria: mudou o nome
do processo.
A boa notícia é que a função básica
do sistema digestório continua a mesma: gerar a energia essencial
ao funcionamento do corpo. Só que os alimentos, na forma em que
são engolidos -- e por mais palatáveis que sejam --, não
podem ser aproveitados pelo organismo. É preciso que eles sejam
modificados e transformados em nutrientes.
Nas empresas, ocorre o mesmo. É inevitável que o funcionário
de boa paz tenha de conviver com colegas intragáveis. E não
adianta ficar estressado nem tentar fingir que eles não existem:
é preciso digeri-los. E aí, uma vez bem digeridos, eles
deixam de ser o purgante que são e viram proteína. Veja
a lista, segundo seu conteúdo (ou falta dele), da gororoba encontrável
no cotidiano das empresas:
JILO
O Jiló é amargo. Pessimista como ele só. Tudo para
o Jiló está ruim e tende a piorar. O que é antigo
não funciona, e o que é novo nem deve ser tentado porque
não vai dar certo. Quem conversa com o Jiló fica com a impressão
de que a melhor estratégia para a empresa é fechar as portas
e vender os ativos como sucata (e, segundo o Jiló, ainda vai ser
preciso pagar para o cata-treco vir retirar). Efeito no organismo corporativo:
por onde passa, o Jiló provoca azia. Frase favorita: "Isso
é perda de tempo".
Modo de digerir: mastigue bem e engula devagar, de modo a manter a boca
sempre ocupada e não ter de falar durante o processo. Apenas, a
cada queixa do Jiló, acene positivamente com a cabeça. Pessimistas,
quando reclamam, necessitam de um contraponto que lhes dê forças
para continuar reclamando. Sem essa alavanca, o Jiló irá
se desmanchando aos poucos. E, depois de algum tempo, sumirá de
sua mesa.
VINAGRE
O Vinagre é ácido e corrosivo. Para poder tirar proveito
da situação, faz o que pode para azedar o ambiente. É
especialista em criar dificuldades e em criticar qualquer idéia
alheia -- especialmente aquelas que ele gostaria de ter tido. É
duro de engolir, mas não pode ser subestimado, porque sempre tem
alguém que confunde a verdadeira motivação do Vinagre
-- o carreirismo sem remorsos -- com autenticidade.
Efeito no organismo corporativo: o Vinagre causa gastrite (e, quando é
promovido a chefe, sobe na escala digestiva e aí passa a causar
úlcera). Frase favorita: "Assim não dá!"
Modo de digerir: a primeira reação do funcionário
de boa paz é atacar o Vinagre com unhas e dentes, mas isso só
iria causar indisposição e mal-estar. Ácidos precisam
ser neutralizados, e a melhor maneira de fazer isso é por meio
do tato: da boca para fora, vá repetindo o fim de cada frase que
o Vinagre disser. Enquanto isso, por dentro, mantenha seu metabolismo
gargalhando.
MELADO
O Melado é pegajoso e enjoativo. Não tem opinião
própria, mas tem uma incrível habilidade para se apossar
das opiniões alheias. Só se aproxima de um colega quando
está querendo alguma coisa, e vive na sombra dos superiores hierárquicos,
de quem copia o modo de falar e de vestir, e a quem trata com uma deferência
servil.
Efeito no organismo corporativo: o Melado é um parasita, e parasitas
são garantia certa de cólicas. Frase favorita: "Excelente
idéia, chefe".
Modo de digerir: Responda usando o mesmo tempero: frases inócuas
e descartáveis. Quando o Melado começar a perceber que não
vai conseguir extrair da conversa o seu alimento vital -- algo que ele
depois possa usar em proveito próprio --, ele ficará anêmico.
CHUCHU
O Chuchu é insosso e insípido. Vazio e sem substância,
leva horas para não dizer nada e sempre aparece nos momentos mais
inconvenientes. Ninguém sabe bem o que o Chuchu faz, embora todos
lhe reconheçam certa competência para dar a impressão
de estar fazendo alguma coisa. Mas seu verdadeiro talento está
na capacidade de postergar: nunca decide nada e cria todas as dificuldades
possíveis para que nada seja decidido. Se o Chuchu não fosse
gente, seria uma eructação (mais conhecida como arroto).
Efeito no organismo
corporativo: depois de devidamente engolido, o resultado é o que
seria de esperar, apenas gases. Frase favorita: "Proponho a formação
de um comitê para tratarmos do assunto".
Modo de digerir: quando o Chuchu se aproximar, faça uma dieta:
levante-se, peça desculpas, diga que você está atrasado
para uma reunião e saia o mais rápido possível.
O requisito para a Digestão de Pessoal é aquele que o funcionário
de boa paz já aprendeu com base em experiências empíricas:
para encarar o menu de vaidades corporativas, é preciso ter muito
estômago. A boa notícia é que isso todo mundo tem.
A má notícia é que nem todo mundo sabe usar, e aí
estraga o fígado. Digerir um bagulho e transformá-lo em
energia não é lá muito apetitoso, mas é necessário,
porque imuniza o organismo contra as complicações gastroempresariais.
Por isso, aqui vai a Sugestão do Dia, válida para todos
os dias: Digestão de Pessoal à Moda da Esfinge. Primeiro
decifre. E depois devore.
|