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A
fofoca existe de vários tipos e com muitas finalidades, desde a
mais inofensiva até a prejudicial. Nem sempre se refere a uma mentira,
pode ser uma notícia verdadeira, e que se transforma em fofoca.
A fofoca é tema central do livro Tratado Geral sobre a Fofoca,
do autor José Ângelo Gaiarsa.
Os temas do livro se envolvem e se encontram no tema geral da fofoca.
Explora e discute o assunto, e ainda, traz ilustrações com
títulos e insinuações visuais, que denuncia e analisa
o tema. O livro trabalha o indivíduo e o social de forma sugestiva,
descrevendo a maneira como todos estão envolvidos, tanto como vítimas
quanto como agentes da fofoca.
O mexerico, a intriga, a fofoca é um meio de controle social. E,
na maioria das vezes, provocada pela inveja. Falar sempre foi a atividade
mais freqüente do homem. Segundo Gaiarsa (1978) a única escola
de pensamento contemporânea que dá muito valor à fofoca
é a Orgonomia. Nela, sob o nome de Peste Emocional, é estudado
tudo aquilo que as pessoas inibidas, quadradas e retidas, fazem contra
todos os que se mexem, vivem e fazem coisas.
A fofoca se movimenta em torno de um acontecimento. É o mais fundamental
dos fenômenos humanos, acontece de tal forma que se esconde na medida
em que aparece e se torna uma rede pública secreta. Na obra Tratado
Geral sobre a Fofoca, o autor mostra que 80% das conversas podem ser chamadas
de conversa-fiada. Trata-se de falar por amor a conversa, de falar por
falar, de papo. 40% dela é fofoca e 40% é afirmação
de preconceito. A fofoca varia bastante com relação ao conteúdo
e Exige um grau de improvisação e criatividade. Tem um sentido
depreciativo. Quando se fala em fofoca, é porque o assunto já
está deixando de ser importante e entrando na área do mexerico.
Quando
fazemos uma visita, quando acabamos de falar com um colega, sempre estranhamos
– muito ou pouco – o que o outro disse. Estranhamos também
o que ele fez, achamos que ele não regula bem neste ou naquele
ponto, achamos – vejam só! – que ele faz as coisas
de um modo bem esquisito. De outra parte, veja como eu sou mais inteligente
do que ele, veja como eu sei viver melhor, como eu sou mais esperto, etc.
Tudo isto é dito de mim para mim mesmo – logo depois do encontro.
É a fofoca de fora (poderia dizer o mesmo para um terceiro), porém,
feita com os meus botões. (GAIARSA, 1978, p. 19).
O
medo de ser falado ou de se tornar motivo de fofoca é o mais freqüente
motivo de supressão de pensamentos e desejos pessoais. A fofoca
se torna o principal instrumento e motivo de auto-censura. O diálogo
interior do ser humano é recheado de intriga com o diálogo
exterior.
A fofoca registra uma hipótese baseada em dados deficientes, que
vão se tornando um fato real. Só quem viveu o fato sabe
exatamente como ele foi. Quem só ouviu falar não sabe o
que aconteceu. Imagina ou supõe. Assim, segundo Gaiarsa é
preciso muita imaginação para fazer fofoca, o que não
se diz é que a fofoca é a imaginação de quem
faz a fofoca.
É comum o ser humano se sentir vítima da fofoca e não
o agente. A fofoca refere-se à informação ou o comentário
sobre um terceiro envolvido ausente. O comentário, ao passar de
pessoa a pessoa, vai sofrendo alterações e acréscimos,
que a modificam. O mais importante ainda é a interpretação
que o fofoqueiro faz das ações da vítima.
O elemento visual também está presente na fofoca. É
possível descobrir, pelo jeito, expressões de rosto, de
mão que uma pessoa está fazendo fofoca. Um pouco diferente,
também existe o segredo, que exige o cochicho, o abaixar da voz.
A maior arma do conservador é a fofoca. Mas, esta acontece em todo
lugar e a todo o tempo. Afinal, é da natureza do ser humano a curiosidade
em relação aos outros. O poder da fofoca atinge o homem
no seu íntimo e insinua sobre o comportamento do mesmo.
Há duas espécies fundamentais de fofoqueiros: os orgulhosos,
que desprezam a pessoa que
estão criticando. A esta espécie de fofocador se pode perguntar:
se o outro é tão desprezível por que você se
incomoda com ele? A segunda classe é a dos ostensivamente invejosos.
A o fazer a fofoca, mostram no olhar e no rosto alguma coisa de espanto
e de perplexidade. Estes são mais honestos, sabem fingir menos,
ou não percebem o que estão mostrando! A cara dos dois,
porém, diz a mesma coisa. (GAIARSA, 1978, p. 53).
Não
existe sociedade sem regras e sem proibições e preferências.
Dentro deste contexto, todo aquele que sai fora deste padrão corre
o risco de ser vítima da fofoca. O ser humano vive uma luta contra
seus próprios desejos para que não seja fofocado. Assim,
quem faz fofoca fala e age sempre de dentro de um sistema.
A área de sexo e família resulta em muita fofoca. Neste
contexto, são discutidos indiretamente problemas como rivalidade,
favoritismo, proteção, perseguição, superioridade,
incompreensão. Gaiarsa (1978) explica que a fofoca sexual é
uma fofoca familiar, isto é, ela se destina a proteger a família.
A família é palco para muitas fofocas. A relação
entre avós, tios, sobrinhos, cunhados, noras se torna complexa
e pode gerar muitos comentários.
Segundo Gaiarsa (1978), jornal e revista representam uma fofoca objetivada.
Objetivada quer dizer feita objeto. O objeto é o jornal ou a revista
propriamente dita. Dentro de uma história universal da fofoca,
o aparecimento do jornal propriamente dito foi um marco fundamental. A
fofoca de alguns – os jornalistas, nem mais nem menos – se
fazia a fofoca de todos por meio e graças dos meios de comunicação.
Ao se tornarem públicas, ao serem reproduzidas em grande número,
elas começaram a deixar de ser fofoca e se tornaram opinião
pública. Através dos jornais e revistas passou a existir
a fofoca coletiva. Estes veículos publicavam notícias de
fatos, idéias e comportamento de pessoas influentes e fizeram com
que a amplitude da fofoca aumentasse.
Jornais
e revistas trazem principalmente retratos do que todos desejam –
ou temem – e ninguém declara. A máquina de reproduzir
textos começou o processo de despersonalização da
fofoca – que sempre foi assunto de boca para ouvido. Às revistas
coube a tarefa de fotografar e colorir as fofocas públicas. O terreno
estava pronto para o cinema – que iria apresentar e representar
os sonhos da humanidade. (GAIARSA, 1978, p. 78).
A
fofoca exclui uma resposta imediata e, assim, acaba por proteger mais
os poderosos, mesmo que se fale mal deles. Como não tem origem
conhecida em uma pessoa ou um fato não existe defesa contra a fofoca.
Dessa maneira, aumenta a desconfiança de todos em relação
a todos.
Gairsa (1978) explica que a fofoca é uma micro-repressão.
Por vezes tão ou mais cruel que a policial. Quem faz a fofoca é
a voz da estrutura. O objeto da fofoca é o processo que modifica
a estrutura. Se todos fizessem o que fez a pessoa criticada, a estrutura
social seria outra. O sistema estaria mudado.
Basta o comportamento de uma pessoa ser diferente do esperado que pode
servir como objeto para o mexerico. A única defesa eficaz contra
a fofoca é o ser humano dizer tudo sobre sua vida para todos e
em qualquer lugar. Contar o que lhe acontece como se estivesse fazendo
fofoca de si mesmo.
Referência
Bibliográfica
GAIARSA,
José Ângelo. Tratado Geral Sobre a Fofoca. São Paulo:
Summus, 1978

Texto de Márcia Cristina de Moraes
Estudante de Jornalismo do UNI-BH – 7° Período
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