Senhoras
e senhores, estamos aqui, pedindo uma ajuda por necessidade. Qualquer
trocadinho é bem recebido. Estou desempregado e tenho que ajudar
em casa. Não estou roubando na rua. Vou agradecendo antes de
mais nada e peço desculpas pelo incomodo. Aqueles que não
puderem contribuir, também agradecemos, pela boa vontade e atenção.
A todos uma boa viagem.
A parada é
o seguinte: passo fome, durmo no chão do meu barraco, minha mãe
não tem dinheiro para comprar remédio. O tráfico
é o meu trabalho. Sei que nego que vacila leva fogo, mas que
outra opção que tenho. Quando a barriga dói, palavras
bonitas não enchem barriga.
Discursos esses
narrados por alguns jovens que vivem na periferia.
Taquaril: não é um universo paralelo, e sim, um bairro
da periferia do Belo Horizonte que habita 40 mil moradores. Como grandes
aglomerados das grandes cidades, há comércio, passantes,
carros, violência, pobreza, tráfico de drogas.
Um lugar tão comum, mas com uma sutil diferença: existe
um movimento na comunidade que se preocupa em formar cidadãos.
Neste contexto de terra de ninguém e terra de todo mundo, surgem
os agentes sociais.
Pedro Henrique Silva Santos é um jovem de 20 anos, morador do
Taquaril, tem seis irmãos. Ele faz parte do projeto de Formação
de Agentes Culturais da Faculdade de Educação da UFMG,
oferecido a meninas e meninos entre 15 a 25 anos. O projeto é
resultado da tese de doutorado do professor Juarez Dayrell, que pesquisou
como grupos sociais interferem no processo de construção
do conhecimento e da cidadania de jovens em regiões de risco.
Na conclusão de seu trabalho mostra que atividades culturais,
como dança e música contribuem para o ganho da auto-estima
e aumento da sociabilidade entre os jovens de tais grupos.
Diariamente, 50 jovens participam de oficinas de artes plásticas,
oficina de rádio, palestras e assistem a filmes. Amizade, respeito,
preconceito, união, diálogo, sinceridade, confiança,
compromisso e paz, são alguns temas abordados. “Quando
formos cair para o mundão dificilmente teremos este momento de
conversar”, ressalta Pedro Henrique e completa “estamos
aqui para orientar sobre os riscos e propor alternativas”.
Tudo isso é o resultado do projeto da UFMG junto com seus parceiros.
Alguns jovens, inclusive o Pedro, passaram pela Clínica Social
ESPAÇO ABERTO que tem como especialidades a Psicologia, Psicanálise,
Psicopedagogia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Orientação
Profissional e Recursos Humanos (recrutamento, seleção,
recolocação e treinamentos) e, pelo seu cunho social,
atende a todas as camadas sociais, através de um atendimento
e negociações individuais, dentro da real capacidade de
cada pessoa.
“Ele fez análise por um bom tempo. As atividades do projeto
e a análise fizeram com que sua decisão não fosse
pela marginalização social. Ao longo desse tempo, ele
perdeu amigos no tráfico. Sendo assim, ele passou a desejar que
outros jovens da sua comunidade vivessem experiências positivas
como as que lhe foram oferecidas e também as que ele procurou”,
afirma Alda Vilas Boas, psicanalista e diretora da Clínica Social
ESPAÇO ABERTO - Psicologia, Saúde e Educação
.
Jésus Marcos (diretor), Andressa Scalzo, Érika Andrade,
Sara Morais, Tiago Villas Boas, Cássia Pereira e Paula Lorenço
e Vinícius Nascimento, todos esses psicólogos, palestram
toda semana sobre sexualidade, mercado de trabalho: emprego/desemprego
e também, propõem dinâmicas de grupo e exibem filmes
temáticos e de entretenimento no espaço cultural do Taquaril,
cinema patrocinado pelo Instituto Pauline Reichstul de Recife. Além
dessas atividades desenvolvidas por esses profissionais, a Clínica
Social ESPAÇO ABERTO - Psicologia, Saúde e Educação
“faz amparo psicológico de acordo com a condição
financeira de cada um dos jovens”, conta o agente comunitário
Pedro.
Criar uma identidade é talvez o grande desafio, ou seja, introduzir
valores saudáveis entre indivíduos e as coletividades
que se percebem e definam sua inserção no mundo. O sociólogo
José Maurício Rodrigues, em seu livro Sociologia e Modernidade:
para entender a sociedade contemporânea, mostra que uma seleção
de elementos compartilhados, assume o caráter de “ïdentificação”.
Inclusive, uma das formas de ligar os indivíduos e a coletividade
é por meio de sentimentos comuns.
“O grupo ao mesmo tempo em que é o todo, é cada
um. Se uma pessoa não estiver bem, o grupo não está
bem. A comunicação é a principal forma de ter integração
de um grupo”, declara Pedro Henrique Silva Santos.