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.: ESPAÇO ABERTO NO MORRO
Agentes sociais resgatam os valores da cidadania.

Por: Ana Virgínia Torga

Senhoras e senhores, estamos aqui, pedindo uma ajuda por necessidade. Qualquer trocadinho é bem recebido. Estou desempregado e tenho que ajudar em casa. Não estou roubando na rua. Vou agradecendo antes de mais nada e peço desculpas pelo incomodo. Aqueles que não puderem contribuir, também agradecemos, pela boa vontade e atenção. A todos uma boa viagem.

A parada é o seguinte: passo fome, durmo no chão do meu barraco, minha mãe não tem dinheiro para comprar remédio. O tráfico é o meu trabalho. Sei que nego que vacila leva fogo, mas que outra opção que tenho. Quando a barriga dói, palavras bonitas não enchem barriga.

Discursos esses narrados por alguns jovens que vivem na periferia.

Taquaril: não é um universo paralelo, e sim, um bairro da periferia do Belo Horizonte que habita 40 mil moradores. Como grandes aglomerados das grandes cidades, há comércio, passantes, carros, violência, pobreza, tráfico de drogas.

Um lugar tão comum, mas com uma sutil diferença: existe um movimento na comunidade que se preocupa em formar cidadãos. Neste contexto de terra de ninguém e terra de todo mundo, surgem os agentes sociais.

Pedro Henrique Silva Santos é um jovem de 20 anos, morador do Taquaril, tem seis irmãos. Ele faz parte do projeto de Formação de Agentes Culturais da Faculdade de Educação da UFMG, oferecido a meninas e meninos entre 15 a 25 anos. O projeto é resultado da tese de doutorado do professor Juarez Dayrell, que pesquisou como grupos sociais interferem no processo de construção do conhecimento e da cidadania de jovens em regiões de risco. Na conclusão de seu trabalho mostra que atividades culturais, como dança e música contribuem para o ganho da auto-estima e aumento da sociabilidade entre os jovens de tais grupos.

Diariamente, 50 jovens participam de oficinas de artes plásticas, oficina de rádio, palestras e assistem a filmes. Amizade, respeito, preconceito, união, diálogo, sinceridade, confiança, compromisso e paz, são alguns temas abordados. “Quando formos cair para o mundão dificilmente teremos este momento de conversar”, ressalta Pedro Henrique e completa “estamos aqui para orientar sobre os riscos e propor alternativas”.

Tudo isso é o resultado do projeto da UFMG junto com seus parceiros. Alguns jovens, inclusive o Pedro, passaram pela Clínica Social ESPAÇO ABERTO que tem como especialidades a Psicologia, Psicanálise, Psicopedagogia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Orientação Profissional e Recursos Humanos (recrutamento, seleção, recolocação e treinamentos) e, pelo seu cunho social, atende a todas as camadas sociais, através de um atendimento e negociações individuais, dentro da real capacidade de cada pessoa.

“Ele fez análise por um bom tempo. As atividades do projeto e a análise fizeram com que sua decisão não fosse pela marginalização social. Ao longo desse tempo, ele perdeu amigos no tráfico. Sendo assim, ele passou a desejar que outros jovens da sua comunidade vivessem experiências positivas como as que lhe foram oferecidas e também as que ele procurou”, afirma Alda Vilas Boas, psicanalista e diretora da Clínica Social ESPAÇO ABERTO - Psicologia, Saúde e Educação .

Jésus Marcos (diretor), Andressa Scalzo, Érika Andrade, Sara Morais, Tiago Villas Boas, Cássia Pereira e Paula Lorenço e Vinícius Nascimento, todos esses psicólogos, palestram toda semana sobre sexualidade, mercado de trabalho: emprego/desemprego e também, propõem dinâmicas de grupo e exibem filmes temáticos e de entretenimento no espaço cultural do Taquaril, cinema patrocinado pelo Instituto Pauline Reichstul de Recife. Além dessas atividades desenvolvidas por esses profissionais, a Clínica Social ESPAÇO ABERTO - Psicologia, Saúde e Educação “faz amparo psicológico de acordo com a condição financeira de cada um dos jovens”, conta o agente comunitário Pedro.

Criar uma identidade é talvez o grande desafio, ou seja, introduzir valores saudáveis entre indivíduos e as coletividades que se percebem e definam sua inserção no mundo. O sociólogo José Maurício Rodrigues, em seu livro Sociologia e Modernidade: para entender a sociedade contemporânea, mostra que uma seleção de elementos compartilhados, assume o caráter de “ïdentificação”. Inclusive, uma das formas de ligar os indivíduos e a coletividade é por meio de sentimentos comuns.

“O grupo ao mesmo tempo em que é o todo, é cada um. Se uma pessoa não estiver bem, o grupo não está bem. A comunicação é a principal forma de ter integração de um grupo”, declara Pedro Henrique Silva Santos.

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