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O
artesanato mineiro enaltece os valores culturais e nos faz pensar o papel
do artesão, como preservador da identidade cultural dentro da conjuntura
social.
As
mãos já estão cansadas pela idade. O barro frio vai
ganhando os moldes de um jarro oriundo da criatividade. Depois de moldado,
o jarro cru, vai para a fornalha, até ganhar a cor da terra novamente.
As mãos férteis, multiplicam os sonhos e os tornam realidade:
transforma barro, argila, madeira, fibras vegetais e toda um diversidade
de materiais em outros objetos repletos de significados. O acabamento
é um “toque mágico”, que vem das tradições
culturais e se mistura com as cores do pensamento. Depois de quase um
dia de acabamento, o jarro, já pintado, vai para a feira garantir
o sustento de toda uma família.
O artesanato, apesar de causar admiração nas pessoas, é
um ofício que carrega inúmeras adversidades, como por exemplo,
a falta de reconhecimento por parte da sociedade da importância
de poder sobreviver com o valor da arte. A artesã de 58 anos, Dona
Geraldina dos Santos, encara o trabalho de fabricar jarros de barro com
um momento de relaxamento em que ela esquece dos problemas pessoais e
mergulha num mundo particular. “Tenho orgulho de falar que vivo
de arte, da minha arte. Sou neta de indígenas e de escravos da
região do triângulo mineiro. Com meus antepassados aprendi
a ganhar o pão de cada dia sem esquecer da tradição
cultural do meu povo”, afirma.
Se essa força de vontade precede a imaginação, é
bem evidente que ela continuará presente na recriação
feita pelo olhar daquele que experimenta a arte. O artista plástico,
Fernando Gomes, que expõe quadros de paisagens tipicamente mineiras,
como ruas e sobrados de Ouro Preto, na Feira Hippe de Belo Horizonte,
considera a arte como uma fonte de desenvolvimento, fruto das raízes
de onde vive e experimento das suas tradições. “Com
o seu talento, o artesão transforma a realidade econômica
e social que está inserido e consegue gerar riquezas. O artesanato
é a expressão e valorização das identidades
regionais”, diz.
O fazer artesanal deu origem ao modo de produção industrial,
que carrega na sua trajetória tradição e inovação.
A historiadora da arte Cristina Junqueira afirma que a preservação
da identidade cultural de uma sociedade promove mudanças contínuas
no modo de viver das pessoas. “Por ser um meio de geração
de renda no âmbito social, o artesanato posiciona-se como um dos
eixos estratégicos na valorização da nacionalidade
de um povo”, declara.
Atualmente, o artesanato mineiro tem firmado presença como produto
de exportação e tem levado a diversidade da cultura brasileira,
por meio das cores, das formas e, principalmente, dos materiais utilizados
com a criatividade e a técnica dos artesãos. Além
disso, o artesanato gera uma série de benefícios pelo forte
vínculo entre os setores de Artesanato e do Turismo, mediante a
inserção do artesão e seu local de produção
nos roteiros turísticos. Há também a implementação
de estratégias integradas, tais como a comercialização
de produtos regionais em pontos turísticos e a ambientação
de hotéis e restaurantes, com produtos artesanais, o que evidencia
a identidade regional.
Prazer
e renda
Na
capital mineira grande parte dos artesãos não possui patrocinadores
para produção de suas peças artesanais. Alguns têm
esse trabalho como passatempo e exercem outra atividade paralela como,
por exemplo, o emprego formal. No entanto, outros pertencem a cooperativas
e associações e o fazer artesanal é sua única
fonte de renda.
A Feira Hippe, em Belo Horizonte, aglomera grande parte dos artesãos
mineiros. Lá, a maioria dos expositores produz suas obras com o
próprio dinheiro. A artesã e farmacêutica Lara Verônica
cria e vende bijuterias e caixas de presente há seis anos, “nunca
tive ajuda de ninguém, mas também não procurei nenhuma
cooperativa ou associação, faço artesanato por prazer”.
Lara diz que para sobreviver unicamente do artesanato é preciso
muita estrutura, pois o material é caro e, além disso, deve
haver uma dedicação exclusiva. “Nas horas de folga
faço minhas peças. O lucro não é muito grande,
pois não se pode vendê-las por um preço alto porque
senão as pessoas não compram”, completa.
De acordo com dados do IBGE, estima-se que em Belo Horizonte 70% da população
feminina produz algum artigo artesanal. Segundo a pesquisa, a tendência
é a de que esse tipo de trabalho informal cresça devido
à originalidade das criações. “Além
de ser maravilhoso usar bijuterias coloridas e diferentes, o artesanato
é uma alternativa de renda para quem não tem emprego”,
afirma Lara.
Atualmente, existem projetos e programas que incentivam o artesanato como
fonte de renda. O Sebrae desenvolveu o “Programa Sebrae de Artesanato”,
que foca a identidade cultural das comunidades, destacando a cultura local.
Além disso, cria postos de trabalho para os artesãos que
pertencem ao programa. De acordo com a coordenadora do programa em Belo
Horizonte, Dorotéa Naddeo, essa é uma forma de ajudar as
pessoas a terem um retorno de lucros de maneira mais rápida. “Ajudamos
a desenvolver negócios e fazer marketing dos serviços feitos”,
ressalta.
Em 2001 a professora de Cultura Religiosa da PUC Minas de Contagem, Dilma
da Silva, criou o “Projeto Vida”, que tem por objetivo ajudar
a população carente da comunidade de Vila Beatriz. O projeto
tem oficina que trabalha com a confecção de bijuterias e
conta com 30 mulheres que são beneficiadas com o trabalho. Dilma
afirma que fornece todo o material para a produção das peças,
entre eles sementes e pedras semipreciosas. “Para ser selecionada
para participar da oficina, a mulher precisa ser carente. São escolhidas
as que têm renda de até 240 reais”. A coordenadora
tem grandes expectativas com o projeto, “estamos com planos de exportar
as peças para outros países. Além disso, as maiores
beneficiadas são as artesãs que antes do projeto não
tinham renda”, fala.
Exposição e venda
O
fazer artesanal representa uma alternativa de geração ou
complementação de renda. Muitas pessoas encontraram nesse
segmento, uma solução para driblar o desemprego e ser dono
do seu próprio negócio. Hoje em dia, muitos artesãos
enfrentam dificuldades para divulgarem seus trabalhos, principalmente,
no que se refere à locais para exposição.
Para
a artesã e artista plástica, Simone Carvalho, a maior dificuldade
é o preço do aluguel das feiras. “Os preços
são altos e quase nunca encontramos vagas que refletem com o orçamento
gerado pelo artesanato”, argumenta. Em Belo Horizonte existe a Feira
Hippe, o Mercado Central, o Central Mãos de Minas, a Feira do Mineirinho,
que expõem os trabalhos artesanais e tentam facilitar e estimular
a venda e o desenvolvimento da arte.
A
Feira Hippe expõe os trabalhos de 2.500 artesãos e funciona
aos domingos de 06h às 18h. A assessora de imprensa da Feira do
Mineirinho, Carla Leandro, diz que a procura por uma vaga no local é
grande e que atualmente todas estão ocupadas. De acordo com Carla,
quando surgem vagas é publicado um edital de licitação
pública, que é o meio pela qual se consegue a licença
permanente. “O espaço da feira pode ser transferido para
o cônjuge, filho e irmão, nesta ordem. Sendo necessário
comprovar que o trabalho artesanal é realizado manualmente”,
esclarece. A taxa mensal para a exposição na Feira Hippe
é de R$ 19,26 + R$ 4,26 de taxa expediente. A Feira de Artesanato
do Mineirinho funciona de quinta a domingo e reúne expositores
de artesanato, decoração, vestuário, calçados,
além de apresentar atrações musicais e gastronômicas.
O
Mercado Central representa uma grande feira que é considerado um
importante centro de abastecimento, com produtos diversificados, como
artigos regionais, alimentos e artesanato. Durante o horário comercial,
os visitantes do Mercado podem ouvir música e apreciar quadros
e artesanato na área de exposições situada na laje
perimetral.
Já
o Projeto “Mãos de Minas” iniciou suas atividades em
1983, como um projeto do governo que visava apoiar o artesão e
produtor informal mineiro em relação à comercialização
e à legalização das vendas. Em 1988, transformou-se
em uma associação sem fins lucrativos que oferece serviços
como legalização de vendas, central de compras, central
de vendas, central de exportação, treinamento, consultoria
advocatícia e plano de saúde.
Segundo
o funcionário da central de compras, Walisson Daniel, a “Central
Mão de Minas” atua em áreas que visam incrementar
o crescimento empresarial do artesão e do produtor caseiro. “O
objetivo não é a comercialização, mas a legalização
do produto”, fala Walisson.
Em
novembro, os artesãos de Belo Horizonte, também poderão
contar com o apoio da XVII Feira Nacional de Artesanato, que será
realizada dos dias 21 a 26. Trata-se da maior feira de artesanato da América
Latina que acontece desde 1989, voltada para os segmentos empresarial
e comercial. O evento faz parte do Calendário Brasileiro de Exposições
e Feiras, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior, inserido também como evento cultural,
através da Lei de Incentivo à Cultura, do Ministério
da Cultura.
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